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MSD: 1° LUGAR: The Sopranos (1999-2007)

3 03UTC abril 03UTC 2010

Criador: David Chase

Emissora: HBO

O conceito do antagonista que vira heroi graças ao seu carisma é velho. 10 entre 10 séries com mulheres de sucesso têm nelas personagens frias, que fazem de tudo para aparentar uma expressão soberana sobre tudo e todos. 10 entre 10 séries policiais têm em seu investigador principal uma figura antipática, carrancuda, que só pensa em trabalho. No primeiro caso, “Sex and the City” tratou esse clichê televisivo com muita inteligência, embora com alguma auto-indulgência às vezes. No segundo caso, em 7 de fevereiro de 1999 apareceu na TV o conceito definitivo do anti-heroi: Tony Soprano.

A data acima não é a do piloto da série, e sim do 5° episódio da 1ª temporada, “College”. Se a figura do personagem que precisa agir de forma antagônica para assegurar sua liderança já era conhecida de outras séries, nesse episódio tudo se elevou a um outro nível. Em “College”, Tony ao levar sua filha à universidade pela 1ª vez, reconhece um antigo desafeto seu, um informante que foi responsável pela prisão de um antigo amigo. O que se vê a partir daí é uma caça no sentido mais animal da palavra. Tony não consegue dormir, nem pensar, nem prestar atenção na filha, enquanto não tem nas mãos o traíra. O caça da maneira implacável, e o mata a sangue frio sem o menor pudor e nem consciência pesada. Por isso Tony Soprano é um personagem inesquecível na história da TV, de botar medo até em Dexter Morgan.

Voltemos um pouco: a história se passa em New Jersey, na época em que a máfia italiana começava a ser desmoronada pela polícia estadunidense, e o estopim dessa guerra entre mafiosos e policiais foi a prisão do famoso Al Capone, fato que reflete em vários personagens da série. Tony é de longe o mafioso mais inteligente da área, mesmo que sempre tenha a sombra o “uncle” Junior. Mas esse não é o único núcleo onde Tony encontra um terreno hostil, até porque este drama, acima de tudo, era “familiar” nas origens.

A família de Tony é ao mesmo tempo sua glória e seu fracasso. Criado por uma mãe inescrupulosa (a fantástica Livia Soprano), Tony passa a frente seu modus operandi que aprendeu com seus comparsas para dentro de casa. A um primeiro olhar, seus filhos não sabem do “trabalho” do pai, e quando descobrem, ficam em sigilo. Sua mulher, Carmela, é a confidente mais crítica do marido, e sendo os dois personagens de temperamento forte, os embates entre os dois (principalmente no episódio “Whitecaps”) provocam sequências intensas, e que graças ao talento de James Gandolfini e Carmela Soprano, elevam cada cena à perfeição. Porém, é visível que sua família que parece andar conforme o patriarca deseja por fora, é instável e cheia de ressentimentos por dentro, sendo que seus filhos (principalmente Anthony Jr.) ao longo da série vão se tornando tudo o que Tony não quer que eles sejam, a mesma coisa que Livia pensava sobre o filho. A melhor descrição para a família de Tony é um grande baralho de cartas, que desmorona com qualquer movimento em falso.

E aí é que entra a Dra. Melfi. A personagem pode ser hoje comparada com o Dr. Paul de “In Treatment”, mas digo sem ressalvas que sua interação com Tony nunca mais será alcançada por qualquer psicólogo/analista/terapeuta da TV. Alguns acham que Melfi não conseguiu desvendar a bagunça que era a cabeça de Tony na última consulta da série. Eu acho que não, acho que Melfi conseguiu isso bem antes, na terceira temporada, no episódio “Employee of the Month”. Melfi tinha um quebra-cabeças enorme a sua frente, e mesmo que fosse fácil colocá-lo em ordem, a imagem que se projetaria seria terrível, então era melhor deixar pra lá.

Tony, assolado pelas duas famílias que exigiam muito do seu tempo, viu na terapia com a Dra. Melfi um refúgio para revelar coisas que nunca teria dito pra ninguém. E embora não demorasse muito para que a vida pessoal da Dra. Melfi se cruzasse com a violência urbana causada pelo próprio Tony, a interação entre os dois sempre foi rica em detalhes soltos, em conversas vagas, e nunca nas discussões, que segundo a própria Melfi, transformava Tony no monstro que ele tinha mais medo.

“The Sopranos”, só pelos parágrafos acima já dá a impressão de que tem muitos personagens. Pois tem MUITOS personagens mesmo. Vemos passar pela série vários mafiosos rivais de Tony, vários mafiosos camaradas de Tony, parentes distantes, parentes próximos, parentes de Carmela, e suas amantes. Esse amontoados de personagens, por incrível que pareça, ganham destaque mais dia ou menos dia (menos os que morrem nos primeiros episódios, né), o que faz que a morte de vários personagens importantes por temporada não soem banais. E as mortes da série, assim como os fins de episódio, nunca são menos que maravilhosos.

E se em “The Wire” o estudo psicológico é feito a partir da violência, em “The West Wing” a partir da política, e “Six Feet Under” a partir da morte, em “The Sopranos” o estudo psicológico é feito a partir somente da cabeça de um mafioso. Na cabeça de Tony, é refletida a violência, assim como a política, assim como a morte, assim como a vida, assim como a culpa, e assim como tudo o que os vários personagens da série despertam nele. Carmela é a única outra personagem que também tem sua mente retratada na série, sendo às vezes uma antítese de Tony (como em “College”, onde ela passa a noite com um padre), ou uma versão feminina de Tony (como em “Soprano Home Movies”). Esse é o diferencial de “The Sopranos”, mostrar como vários assuntos podem moldar as ações de uma só pessoa, e até onde a mente humana consegue seguir sem explodir e mandar tudo para os ares.

“The Sopranos”, nesse estilo, foi perfeita. Perfeita na construção dos personagens, aliada a um roteiro excelente, e um grupo de diretores que beiram a perfeição (principalmente Timothy Van Patten, Allen Coulter, Jack Bender, Steve Buscemi e o próprio David Chase, que dirigiu somente o piloto e o episódio final, mas foi perfeito), e atuações soberbas (Edie Falco e James Gandolfini são espetaculares, assim como Lorraine Bracco, Dominic Chianese e Michael Imperiolli). É pela perfeição em dominar todos os estudos psicológicos possíveis que “The Sopranos” é pra mim, a melhor série da década.

Episódios Prediletos: (3×04) – Employee of the Month, (3×11) – Pine Barrens, e (5×21) Made in America.

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