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Rubicon – 1ª Temporada

9 09UTC dezembro 09UTC 2010

A expansão da AMC como um canal de séries é notável, e isso se deve graças a duas apostas do canal que deram muito certo: os dramas “Mad Men” e “Breaking Bad”. O sucesso das duas séries nas premiações e a aceitação da crítica levaram o canal a apostar em mais uma série no meio do ano, a série investigativa “Rubicon”. A essa altura, a maioria das pessoas que frequentam o blog sabem que a série foi cancelada. Mas o que terá acontecido para o nítido fracasso da série?

Criada por Jason Horwitch, “Rubicon” é um drama que tinha como base a história de Will Travers (James Badge Dale, ótimo), que após a morte do patrão, se encontra em uma investigação que toma contornos políticos caóticos e situações desesperadoras. Além disso, inicialmente desconectadas à trama de Will, temos Katherine Rumor (Miranda Richardson, atriz excelente que foi desperdiçada na série) investigando as causas da morte do marido (o chefe de Will), e a API (American Policy Institute), órgão governamental aonde Will trabalha, que combate atividades terroristas.

Will Travers (James Badge Dale)

Só pela sinopse já se percebe uma boa base que o roteiro poderia explorar, com um arco principal que envolvia uma investigação fechada (Will e Katherine), e outro abrangente que poderia rechear a trama com mais assuntos (API), isso levando em conta um cuidado especial com os personagens, característica das série à cabo americanas. Tudo isso parece ter sido pensado pelos criadores da série, e funcionou em algumas partes, mas “Rubicon” parecia carregar um fardo em sua existência que foi ao mesmo tempo o diferencial positivo, e o karma da série.

Adaptada do livro “Os Seis Dias do Condor”, de James Grady, a série logo foi observada como uma releitura dos filmes de espionagem dos anos 70, como “Todos os Homens do Presidente” de Alan J. Pakula, e “Os Três Dias do Condor” de Sydney Pollack. Logo, os episódios tinham um ritmo excessivamente lento, os personagens seguiam uma linha determinista muito clara, sempre em busca de alguma informação, que os levavam a outra informação e assim por diante, e com personalidades delineadas pelo ambiente em que vivem ou que passaram a viver. Essa inércia dos personagens na narrativa inadvertidamente leva todas as tramas da série a uma conexão, que ditará os acontecimentos finais da história.

Na parte técnica, com um visual esteticamente belo, com locações que transitam do ar livre com paisagens suntuosas ao escritório minúsculo com ar sufocante graças ao design frio do ambiente combinado com a quantidade absurda de papeis, e com detaque especial à fotografia e a trilha sonora.

Will (James Badge Dale) e Katherine (Miranda Richardson)

Todos esses elementos contribuem para o clima de tensão constante, que a série usa algumas vezes como forma de prender a atenção do telespectador, embora pareça uma prática meramente acadêmica. E é nisso que “Rubicon” perde pontos. O próprio diretor executivo da série, Henry Bromell, admitiu que alterou algumas tramas e alguns personagens porque segundo ele, “não é fácil contar histórias sobre pessoas que vivem para analisar informações”. Ou seja, o projeto engessado e saudosista de Jason Horwitch evidentemente não agradou por completo a AMC.

Não cabe a mim julgar se a série deveria ter sido modificada ou não, mas o projeto de Horwitch seria nada menos que uma versão mais interessante da primeira temporada de “Mad Men”, o maior sucesso do canal. Do mesmo jeito que os personagens criados po Matthew Weiner são controlados pelos costumes da época em que vivem, em “Rubicon” se nota também o já citado atrelamento dos personagens ao ambiente de descoberta, investigação e perigo que assola os Estados Unidos no pós-11 de setembro.

Tanya (Lauren Hodges) na API

Mas “Rubicon” não se mostra uma série totalmente fiel ao seu estilo quando vemos, por exemplo, a figura idiossincrática de Truxton Spangler (Michael Cristofer, uma grata surpresa), um vilão quase Hollywoodiano, que ao perceber a aproximação de Will e Katherine e uma possível “montagem do quebra-cabeças” por parte do mocinho da história, simplesmente solta um:  “If he is [a problem], he will be handled…as problems are”, notando uma grave falta de criatividade do roteiro em analisar mais profundamente um personagem que possui e exerce um poder muito grande no esquema investigativo da série, mas cai na caricatura pelos próprios atos. Não é a toa que também vemos uma conquista amorosa tediosa de Will, problemas de uma agente da API com drogas passado de um jeito aleatório, e mais outras coisas que poderiam ser facilmente descartadas em prol de um vislumbramento maior da estética da série e sua reflexão em seus personagens.

Truxton Spangler (Michael Cristofer)

Dessa forma, fica difícil apreciar os momentos de reflexão de Katherine, que tornam a personagem detestável e insossa, além de outros personagens que se saem melhor que Katherine, como Kale Ingram e Miles (respectivamente, Arliss Howard e Dallas Roberts, que aproveitam cada chance que o roteiro dispõe), mas que ainda careceram de mais conteúdo dramático,  fica difícil torcer pelo personagem de James Badge Dale, que passa por uma transformação profunda ao longo da série que não é bem retratada pelo roteiro (a menos no último episódio), e fica muito difícil se interessar por qualquer coisa que envolva o ambiente claustrofóbico da API.

Kale Ingram (Arliss Howard) e Will (James Badge Dale)

Sim, ainda assim a série tem aspectos interessantes em sua história que ganham contornos inteligentes nos últimos episódios da temporada (a partir do episódio “A Good Day’s Work”, mais designadamente), e tem um clímax muito interessante no penúltimo episódio, que é movimentado e remete a outros thrillers de investigação terrorista como “24”, mas tudo cai por terra quando o fim de temporada remete novamente à mera transmissão dos epílogos dos filmes investigativos dos anos 70.

A equipe de roteiristas certamente se deu conta de que a série estava aos poucos perdendo a própria identidade de “série de apreciação”, e então todos os elementos citados anteriormente voltam para assolar Will Travers e colocá-lo de volta e definitivamente no centro de uma trama angustiante onde a busca incessante pela “verdade” parece ter chegado ao fim.

Will (James Badge Dale)

No fim, “Rubicon” é uma série correta e repleta de erros e acertos que definiram sua temporada como desestimulante em alguns momentos cruciais, mas competente em momentos contemplativos. Isso é consequência da tentativa de adaptar a história nostálgica de Jason Horwitch ao contexto atual das séries de investigação feita por diretores executivos da série. No fim da história, a trama parece ter fechado a maioria dos pontos que se propunha no piloto, e por isso o cancelamento da série ainda na primeira temporada não é motivo de descontentamento, pelo menos para mim.

FYC:

Melhor Episódio: “Wayward Sons”
Melhor Ator: James Badge Dale (“You Can Never Win”)
Melhor Ator Coadjuvante: Michael Cristofer (“The Outsider”)
Melhor Atriz Coadjuvante: Miranda Richardson (“In Whom We Trust”)
Melhor Direção: Michael Slovis (“Wayward Sons”)

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2 Comentários
  1. Lucas Alves permalink

    Honestamente, não tenho uma opinão concreta sobre Rubicon. Bem, eu gostei da série, por causa de modo como as histórias de Kateb e da Atlas se conectaram na reta final da temporada. Por outro lado, achei TODOS os personagens muito mal desenvolvidos pelo roteiro.

    No final das contas, o saldo de Rubicon comigo foi positivo, mas mesmo assim estou indiferente quanto ao cancelamento. Estranho isso, né? Não sei explicar… Gostei da série, mas não a ponto de me empolgar c/ ela. Enfim, não sei exatamente o que pensar sobre Rubicon.

    Além disso, achei sua análise da série muito interessante. Você mostrou ponto de vistas que eu não tinha percebido antes. Parabéns pelo texto!

  2. Saulo permalink

    “Wayward Sons” foi o melhor episódio pois foi de fato o mais movimentado e, possivelmente, um dos únicos em que realmente se tem alguma ideia do que está acontecendo!

    Para mim o principal defeito da série é ser cansativa: mesmo interessado em desvendar o mistério ou acompanhar os personagens, parecia que os episódios não terminavam nunca… diferente de Breaking Bad por exemplo, eletrizante até mesmo em episódios como “Fly” (White e Pinkman perseguindo por 40 minutos uma mosca em um laboratório)!

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